Poema sobre a liberdade
abril 14, 2010

Hoje me falta liberdade.
E essa falta me amarga.
É essa amarga amarra,
De ver o mundo preso,
Preso e amarrado
com o arame farpado
do dinheiro, da covardia,
da incompreensão.
Medos. Muitos medos.
E no medo de uns a prisão de outros.
Liberdade, irmã da alegria,
Hoje não existe.
Hoje os pássaros se calaram,
E o vento dizia ranzinza:
Hoje o céu é cinza…
Dizia num tom apático,
sem amor ou cólera,
sem paixão,
Como se a esperança de um preso perpétuo pudesse dizer.
Hoje sinto-me preso para sempre.
Sinto-me preso pela angústia das coisas nunca serem como eu as imaginei,
Preso pela desilusão, pelo desencantamento do mundo,
Como se um deus cruel sempre fizesse o futuro diferente das nossas esperanças de propósito.
É hora de parar de esperar. De esperançar-se.
É hora de viver livre, sem mais pensar.
(Ilustração: Yna Barros)
Outras Atmosferas
julho 10, 2009

Pôr-do-Sol em Urano | Foto: RRaele | Jun, 2009

Pôr-do-Sol em Urano | Foto: RRaele | Jun, 2009

Luar sobre o Rio Elétrico de Salonar | Foto: RRaele / Jun, 2009

Chuva com Nebulosa | Foto: RRaele | Jun, 2009

Sem título | Foto: RRaele | Jun, 2009
Tive o prazer de assistir o colóquio “Tecnologia Energética Sustentável: Um Olhar Prospectivo” com Prof. Dr. Carlo Rúbia – Universidade de Pavia, Itália – sobre geração de energia sustentável. Ele falou das novas tecnologias que virão, em particular sobre as usinas solares de “melted salt” (sal derretido) e das usinas nucleares movidas a Tório, que trabalham o conceito de fissão nuclear em conjunto com um acelerador de partículas. O Resultado? As usinas solares de sal derretido são muito mais baratas e eficientes, com um tempo de implantação de oito meses (já estão funcionando na Espanha) e as usinas nucleares de Tório geram muito menos lixo atômico – além do lixo atômico possuir um decaimento radioativo muito mais rápido.
A árvore de estrelas
abril 11, 2009
Na manhã seguinte Antônia plantou a semente em seu quintal, e a semente a ensinou, durante muitos anos, que para ser dona dos pássaros é preciso plantar árvores. Árvores da semente da liberdade. Como as árvores do céu.
No ponto de ônibus
janeiro 15, 2009

No ponto de ônibus, espero,
e penso na realidade presente,
no tempo,
na força que move as pessoas e as coisas.
Concluo que o presente é um ponto inatingível entre o passado e o futuro.
O instante é fluido, tão volátil que não existe.
Mas ao mesmo tempo, o presente, o instante presente se perpetua,
infinitamente,
resumindo em si toda existência .
Assim o instante, o presente,
existe sempre,
mas não existe nunca.
O carro passou barulhento.
Barulhento e sujo.
É velho. Passado no presente,
vivo.
Passado vivo no presente.
Coisas novas estão surgindo, a cada instante.
O segundo chega a ser ridículo, sem sentido de existir perto do tempo de tudo.
Um homem passa com furos de aço na perna,
de muleta ele passa.
A dor passou. A memória da dor talvez nunca passe.
A marca fica,
e se modifica
mesmo tendo sido sempre uma só. Uma marca só.
Os significados mudam
mas o significador não.
Cristalizado no passado… Cristalizando o futuro. Vivo no presente.
Eles acontecem no calendoscópio de tudo
e emergem em nossas vidas.
E as transforma.
Espero meu ônibus,
e ele não chega.
Não ligo. A demora cultiva letras e as letras são eternas.
(toda ação é imortal)
O ser humano não é imortal,
mas o que ele faz e diz é imortal.
Resignificando o mundo eternamente.
O imortal é o mais mutável.
Paradoxo infinito esse.
O que temos de imortal,
o nosso impulso de mudar o mundo,
e seu poder, suas infinitas consequencias,
só se torna imortal transformando-se através dos tempos.
E isso destrói a idéia das igrejas. O absoluto… Ele se manifesta em movimento.
ele não vem.
O orelhão toca.
(há um telefone público no ponto de ônibus)
Eu atendo.
É uma moça.
Ela quer saber quem anda ligando pra ela desse telefone público.
Milhares de pessoas falam-se por fios.
Neurônios de plástico…
Quem faz sua voz passar pelo cobre até o ouvido interno daquela pessoa?
Digo que não sei.
Ela diz que devia ser alguém que não tinha o que fazer…
O passado se fez presente e meu ônibus chegou.
O Concreto do Som
dezembro 24, 2008
Fervem ruídos na metrópoloe.
Poema sobre o som do Mar
novembro 25, 2008
No cheiro do mar sinto o sal da liberdade.
Perfume de água com essência de pedra.
O gosto do sangue transparente do mundo.
e seu som,
vasto como um trovão e tranqüilo como um cochicho,
Forte, e mais leve que a sombra de uma concha,
Mais leve que a sombra da espuma,
mais leve que a sombra da luz.
Som que acalma, e nunca descansa,
Som mínimo, bolhas, pequenas coisas,
detalhes de água na areia,
Som do mar. Grande.
Imenso, impensável,
Incogniscível.
Há cores no som do mar.
Há branco e verde nas ondas e seus gritos para as pedras,
água que desafia as pedras,
desde o início de tudo,
águas suaves, que moeram pedras através do tempo,
Formando toda terra e areia do mundo,
sólido.
Grão.
E há vida no som do mar,
Milhares de seres em uma gota,
minúscula, microscópica, infinita.
Há um oceano por gota de oceano.
E peixes enormes, vagarosos, deslizantes,
despreocupados. E seu canto.
Canto de peixe, Voz do silêncio, do som na água do som do mar.
Do som do mar que possui os mistérios do vento,
vento do qual nunca sabemos sobre seu futuro,
seu destino incerto, livre a cada segundo,
ágil,
Vento que move a superfície da água,
Em noites claras,
espelho falso, onde o céu se olha,
e vê matizes de mil cores, orla noturna,
Espelho das estrelas, luas e planetas,
Espelho do sol, força impensável,
e sua luz, fogo que anda através do infinito
e clarifica a água,
dá vida às cidades dos corais,
dançam com a serenidade das profundezas iluminadas,
Ah! som do mar, música que nunca envelhece,
música que nunca se repete,
há milhões de anos compondo,
música que nunca pára,
que me dá fôlego para viver,
Som do Mar.
Som do mar, voz de um deus de vida eterna.
Que segredos o mar te conta?
Uma mulher de azul
outubro 22, 2008
… She got a watch way… Tocava com um mínimo chiado o rádio na guarita de Argenor, eram três horas da manhã de uma escura madrugada de inverno. Argenor era guarda noturno, trajava uma japona de nylon rasgada, um sapato de couro preto e calças bem vincadas. A camisa branca de botões era seu uniforme. Sempre barbeado e com pente no bolso, ele sonhava com as mulheres das revistas enquanto ouvia aquela canção distante, de outro tempo e outro lugar. Mas a melancolia era presente e tocada num blues de voz e violão. Pensava na vida. Tinha uma cabeça simples. Sem grandes complicações existenciais, ou questionamento sobre a natureza das coisas. Era tão próximo dessa natureza que não lhe acometiam tais mistérios existenciais. Até aquela noite em que escutou passos.
Passos de mulher, de salto fino batendo no asfalto. A lâmpada da rua estava fraca por demais e sua lanterna sem pilhas. Levantou um palmo do banquinho e espiou com pescoço torcido pra fora da guarita. Sim era uma mulher. O vulto já parecia inconfundível. Vestia azul. Um azul profundo… Argenor ficou apreensivo. Quem seria ela? O que fazia uma mulher bonita andando sozinha de salto na alta madrugada? Ela foi se aproximando. De frente para guarita ela bate no vidro…
- O senhor pode abrir a porta um minuto?
- Pois não, disse o vigia…
Assim que abriu a porta Argenor viu uma mulher que não era feia ou bonita, era uma mulher diferente. E tinha charme, isso tinha. Parecia ser uma mulher pobre de hábitos refinados. Nunca tinha visto isso. E havia tranqüilidade no seu olhar. De uma força antiga, com certa nostalgia de épocas passadas. Parecia com as mulheres do cinema em preto e branco. Seus cachos eram brilhantes e se destacavam com a iluminação do poste. Ela sorriu para ele tirou um cigarro do bolso e olhou nos olhos de Argenor. Ele pegou a caixinha de fósforos que usava para acender velas em noites de falta de luz ou pilha na lanterna e riscou a pólvora do palito. No rádio a música estava baixinha, quase acabando, de modo que o fósforo cantara alto suas línguas de fogo no ar. Ela encostou seu dedo na mão de Argenor e conduziu-a até o cigarro. O fumo ganhou calor, incandesceu-se, e ela depois da tragada, perguntou:
- O que é o mal para você?
- O mal? O mal é a mentira…
- Não. Não é…
- Então o que é?
- É só aquilo que seu coração ainda não sabe…
- Coração sabe?
- Sabe.
- E como é saber de coração?
- É saber sem ter que perguntar…
Deu mais uma tragada. O rádio começou um rock gostoso, de baile…
- Aumenta o rádio… Ela pediu docemente.
Ele aumentou.
- Aumenta mais…
Ele aumentou mais um pouquinho, com receio de acordar alguém da rua.
- Vem dançar, ela disse jogando e esmagando o meio cigarro no chão…
Argenor sentiu um frio pelo corpo. Começou a tremer. Criou coragem e levantou. Ela estava bonita naquele vestido azul escuro. Era mais velha do que tinha imaginado, mas não menos bela.
Começaram a dançar, ela segura. Ele tímido, sem saber como abraçá-la.
- Qual é seu medo?
- Não temo nada. Disse Argenor mentindo.
- Por que sua mão está tão fria nas minhas costas?
- Esse é o frio da noite dona… Dona da noite… (riu). Quer ver o pôr-do-sol?
- Não homem. Não vivo na luz do sol…
- Quem é você? Que nunca vi pessoa tão segura de si?!
- Sou a noite que conversa com todos os homens… (riu) A noite que existe dentro de você e que você nunca consegue enxergar… Essa sua noite que minha coragem escancara (risos).
- Pra mim você é um mistério, mas estou gostando de dançar…
- Sim eu sou o mistério.
- Como você se chama?
- Pra que você quer saber?
- Pra saber… Ué…
- Não é melhor ficar sem saber?
- Por quê?
- Fica mais bonito…
- Vamos ver o pôr-do-sol lá no meu barraco.
- Não vou. Não gosto de luz. Fico feia na luz. Minha beleza é outra.
A música no rádio acabou e o locutor começou a falar. Ela soltou o corpo de Argenor e deixou um rastro de perfume que Argenor achou gostoso… Andou até a guarita, acendeu mais um cigarro e foi andando pelo caminho que chegou. Foi dormir. Na próxima noite teria muitos homens pra atender. Argenor ficou certo de que nunca teria uma mulher tão segura de si como aquela. Não era uma mulher comum. Nenhuma mulher do mundo teria a coragem e a segurança de tirar um homem pobre e feio pra dançar às três horas da manhã. E olhá-lo no olho como se ele fosse… Pequenino… Era uma diva da noite, uma divindade da lua…
Marmita
outubro 16, 2008
Outro dia mesmo, sentei no fundo do ônibus e me deparei com uma prosa… Não que estivesse à caça de ouvir sobre a vida alheia, mas não há quem resista perder um ponto se a história for única. Tal foi o caso desta sorte que ouvi em plena Faria Lima numa quinta-feira. Era uma voz nordestina, lépida, acesa:
- Mas pois é homem! (batendo as mãos nas pernas) Eu te juro! Era pra nóis tá fazendo festa neste mesmo minuto! Eu não enriquei porque Deus não quis! Foi por pouco é que eu não ganho muito!
O seu amigo não se conformava…
- Chico! Como é que você deu vaga na fila pro outro comprar a loteria no seu lugar! E você viu ele ficar rico na sua frente? E no seu lugar!
- Mas oqueque eu ia fazer? Me diga! A fila tava grande, e chegou na minha vez…
- E tu não comprô?
- Nada! Fui pegar o dinheiro no bolso pra comprar a raspadinha, e não achava os troco!
- Ah Meu Deus!
- Falei pro homem que tava atrás de mim… Pode passar que eu não tô achando…
- Aí foi ele que achou…
- Foi! Foi na minha frente Bastião. Na minha frente! Olha só. Logo em seguida que ele comprou a cartelinha, que era a do meu lugar na fila, eu comprei a que era a dele, e a gente foi raspar no balcãozinho que tinha do lado. Bastião do céu! O homem começou a tremer e ganhou cem mil. Cem mil debaixo da minha vista! Bem ali!
O ônibus parava em cada farol e a esta altura não havia um só homem que não estivesse pescando na conversa deles. De repente o que estava sentado na frente dos dois, com uma japona cinza, parecia ser guarda noturno, torceu o pescoço e palpitou:
- Ó, o senhor me desculpe, mas se o senhor fez uma gentileza e ele ficou rico por causa da sua educação ele tinha que dividir o dinheiro com o senhor…
Foi o bastante. Mais três entraram na conversa, dizendo que se tratava da mais pura verdade. Um deles disse que era o caso de se pagar pelo menos vinte mil. Menos do que isso, eles concordavam, seria falta de polimento por parte do sortudo. Depois de terem dado preço para a gentileza, perguntaram pro tal de Chico o que ele faria com a dinheirama. Não deu nem tempo para ele responder que já começaram a gastar o dinheiro por conta…
- Eu comprava a casa que eu to construindo na praia pro meu patrão e ia morar lá o resto da vida! – Disse sorrindo um pedreiro preto com cabelos brancos e beiço estourado de sol…
- Eu não… Completou do outro lado o magricela. Comprava dois ônibus usados e fazia clandestino, dá mais de dez mil por mês!
Tinha um senhor gordo de narigão, boina e grossa sobrancelha. Vestia um pulôver azul de lã furada… Ficava repetindo baixinho para si mesmo, o sotaque era italiano:
- Cem milllllllll?! Puxa, cem millllllllll?! Mas cem milllllll?!
Era tanto para aquele desempregado que a quantia chegava a ser ingastável. Até eu me peguei torrando a quase fortuna do tal Francisco… Eram duas da tarde, estava voltando pro escritório e ainda não tinha almoçado… Morto de fome, claro, sonhei acordado em gastar uma pequena parte da dinheirama alheia numa boa mesa de São Paulo… Quando me vi provando uma refeição esplendorosa, a cerveja gelada e o tutu-de-feijão levemente apimentado, arroz branquinho perfumado de alho, babata frita e bife macio, acordei e reparei numa marmita, segura pela mão que estava preste a descer da condução. De alumínio, amarrada com uma tira de câmara de bicicleta para não abrir no banho-maria. Imaginei o que poderia ter dentro… Arroz e salsicha fria? Concluí… Não seria nada mal se fosse esse que tivesse ganhado o prêmio no lugar do Chico…





