No ponto de ônibus
janeiro 15, 2009

No ponto de ônibus, espero,
e penso na realidade presente,
no tempo,
na força que move as pessoas e as coisas.
Concluo que o presente é um ponto inatingível entre o passado e o futuro.
O instante é fluido, tão volátil que não existe.
Mas ao mesmo tempo, o presente, o instante presente se perpetua,
infinitamente,
resumindo em si toda existência .
Assim o instante, o presente,
existe sempre,
mas não existe nunca.
O carro passou barulhento.
Barulhento e sujo.
É velho. Passado no presente,
vivo.
Passado vivo no presente.
Coisas novas estão surgindo, a cada instante.
O segundo chega a ser ridículo, sem sentido de existir perto do tempo de tudo.
Um homem passa com furos de aço na perna,
de muleta ele passa.
A dor passou. A memória da dor talvez nunca passe.
A marca fica,
e se modifica
mesmo tendo sido sempre uma só. Uma marca só.
Os significados mudam
mas o significador não.
Cristalizado no passado… Cristalizando o futuro. Vivo no presente.
Eles acontecem no calendoscópio de tudo
e emergem em nossas vidas.
E as transforma.
Espero meu ônibus,
e ele não chega.
Não ligo. A demora cultiva letras e as letras são eternas.
(toda ação é imortal)
O ser humano não é imortal,
mas o que ele faz e diz é imortal.
Resignificando o mundo eternamente.
O imortal é o mais mutável.
Paradoxo infinito esse.
O que temos de imortal,
o nosso impulso de mudar o mundo,
e seu poder, suas infinitas consequencias,
só se torna imortal transformando-se através dos tempos.
E isso destrói a idéia das igrejas. O absoluto… Ele se manifesta em movimento.
ele não vem.
O orelhão toca.
(há um telefone público no ponto de ônibus)
Eu atendo.
É uma moça.
Ela quer saber quem anda ligando pra ela desse telefone público.
Milhares de pessoas falam-se por fios.
Neurônios de plástico…
Quem faz sua voz passar pelo cobre até o ouvido interno daquela pessoa?
Digo que não sei.
Ela diz que devia ser alguém que não tinha o que fazer…
O passado se fez presente e meu ônibus chegou.

